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4/01/2013

Quando Você Vem.

 A noite estava extremamente fria e a neve insistia em continuar a cair. Aquele era seu segundo Natal com neve, depois de tanto sonhar em ter um. Estava enrolada em um cobertor e encolhida em um sofá, uma xícara de chocolate na mão e um romance barato na outra. Lá fora Montmartre era barulhento e festivo e bem... ela não estava para festas. Alguns minutos ou horas se passaram e o sono vinha implacável fazendo-a embaralhar as letras do livro que estava lendo.
Subitamente sentiu um toque gelado em seu pescoço. Com um preguiçoso sorriso deixou-se ronronar:
- Até que enfim você chegou.
Olhou para cima e viu o homem sorrindo de volta para ela, os cabelos cobertos de neve.
- Você achou que eu não viria ? Como se eu fosse deixar você passar esse Natal sozinha.
Ela ainda rindo o beijou e o puxou por cima de si no sofá. Sentiu o peso do corpo dele sobre o seu, as mãos geladas tocando sua pele quente sob a roupa...
- Fecha os olhos. -ele pediu- Fecha os olhos e não tenha medo, eu estou sempre aqui.
De repente o frio invadiu a sala. Ela abriu os olhos e se viu sozinha novamente. Voltou o olhar para a foto do marido em cima da lareira. Falecido no Natal passado por câncer cerebral.

"Montmartre en ce temps-là accrochait ses lilas jusque sous nos fenêtres... "



N.A: Extremamente inspirado na música do Charles Aznavour escrita acima :D

3/21/2013

O Segredo do Mar


Porque os pingos de chuva atrapalhavam sua visão ele passou a mão nervosamente pelos olhos. O mar estava violento e o navio veleiro seguia com dificuldade naquelas águas escuras, a tripulação estava alarmada.
Rezava a lenda que aquela região do mar era assombrada por terríveis criaturas, verdadeiros demônios que podiam afundar qualquer embarcação em questão de minutos. Eram seres malignos dotados de uma extrema beleza feminina. Porém ele não se preocupava com tais perigosas criaturas, achava ter o coração endurecido pela morte prematura de sua noiva e o desejo sexual para ele era algo facilmente controlado com um bom porre de uísque.
Aos poucos um cheiro de sangue foi invadindo o navio e uma música envolvente e etérea foi ouvida por todos, eram como anjos cantando em meio a tempestade. De repente ele não pode mais enxergar coisa alguma ao seu redor além uma brilhante criatura repousada na proa do navio.
Ela possuía a pele achocolatada, reluzente e úmida, os cabelos eram compridos e negros descendo escorridos até a altura da fina cintura e cobriam-lhe os mamilos, abaixo de seu umbigo podia se ver o começo de escamas que lhe formavam a cauda. Ele não podia se dar conta dos marujos morrendo a sua volta, só pode caminhar até ela. Quando chegou perto sentiu o forte aroma de mar e percebeu que ela possuía enormes olhos cinzas e tristes. Soube olhando naqueles olhos que a seguiria até a morte.
Ela lhe sorriu e se aproximando do ouvido dele, sussurrou:
- Me perdoe mas a dor é tudo o que eu conheço.
Assim puxou o rapaz pela nuca e o segurando fortemente se lançou de volta no mar.


                                                       (ilustração de Courtney Brims)

2/07/2013

Clichêzinho

Ai querido, tinha tanta coisa que eu queria te dizer. Escute bem, benzinho:
Sabe quando você vem assim todo maroto, bagunçando meu cabelo e fungando no meu pescoço ?
Eu derreto, querido!
Sabe também quando eu tenho aqueles pesadelos no meio da noite e acordo com você me abraçando forte ?
Eu derreto, querido !

Chegamos aonde eu queria chegar, amor: aquelas vezes que você olha dentro dos meus olhos, com esses olhos cor de chocolate, e me pede, assim bem jeitosinho, para ficar com você para sempre e ser tua mulher.

Ai meu bem, ai querido. Ai de mim, ai de nós.
Querido, mulher tua é somente o que quero ser.

"Et on se prend la main, comme des enfants, le bonheur aux lèvres, un peu naïvement.."


1/15/2013

E assim.

E veio assim como quem não quer nada: de início fez um chamego nos cabelos e depois sugou a pele do pescoço. Ele era sempre assim: doce e ardente. Ela gostava. Só não gostava de quando era amargo mas suportava. E de novo aquele ar despretensioso: selinho no canto da boca, um afago e depois o beijo quente e demorado. O gosto refrescante de melancia. O sorriso bocó depois do beijo. E era assim. Fagulhas e espinhos. E o abraço, ah o abraço, esse era apertado e cheio de promessas.
Fica comigo ?
Por quanto tempo ?
Pra sempre.
Pra sempre, meu amor.

"Faz tudo ficar melhor quando eu me sinto trite, me diz que eu sou especial mesmo quando eu sei que não sou..."

1/03/2013

Clarice

Era engraçado. Bem, talvez engraçado não fosse a palavra certa para definir a angústia que sentia. Estava ali parada há uns trinta minutos. Sentia alguns fios de seu cabelo sendo embaralhados pela brisa noturna, certamente estariam ressecados e cheirando a maresia pela manhã, não que isso importasse.
Era o existencial aqui e agora que importava. Era o mar e suas ondas violentas, era o ar levemente salgado ou talvez até fosse o velho gato malhado que estava preguiçosamente repousado em seu colo. Mas sabia, em seu intimo, que estava desgastando. E bem, nunca vale a pena estimular algo desgastado. Sentimentos, pessoas... vidas desgastadas.
Com uma súbita compreensão se levantou, afastando o pobre gato do colo. Caminhou pela areia até sentir a água gelada do mar molhar os seus dedos do pé. E, pela primeira vez, notou que não estava pensando em nada.
Mergulhou, nadou e flutuou por um tempo indeterminado. Sorrindo, descalça e atordoada ela atravessou o asfalto até o prédio onde morava. O porteiro reclamou da água no piso, mas ela mal ouviu. Clarice finalmente se sentiu livre.

Escrito em abril de 2011

"A noite é tão linda que eu vou ficar. É bom ser menina na varanda, na varanda..."



12/26/2012

Então.


Então era assim: era quente como café pela manhã e frio como uma lâmina suicida.
De dia, doía, ardia e queimava. A noite brilhava e correspondia, beijava e amava.
Então um dia parou. Se sentiu cansado, se sentiu perdido, enojou das pessoas.
Então olhou pela janela, era de manhã e o céu possuía vários tons de cinza.
Então sentiu a vontade de voar e de um impulso só se atirou ao chão, lá do décimo primeiro andar.

"(...)E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
"
Ismália - Alphonsus de Guimaraens.


12/22/2012

Carta Para Você (em Azul)

Eu sei quando você me observa quando estou sentada na janela. E eu sei também que você pensa o quanto eu sou estranha e o quanto será insuportável ir lá e me ver com o rosto cheio de lágrimas (acho que não há maneira mais fácil de te irritar). Apesar de você alegar sentir profunda indiferença pelo meu rosto cheio de lágrimas, acho que sente mesmo é irritação.
Com o tempo a minha vontade de te agradar diminuiu e então resolvi chorar quando eu quisesse. Passei a encarar o tempo que eu passava longe de ti como uma folga das tuas exigências. Parei de tentar chamar a sua atenção para o que estava morrendo entre nós. Percebi que indiretas só funcionam para quem as manda, não adianta você não ia ver e se visse não ia se importar...
Mal sabe você que enquanto estou aqui na janela eu estou mesmo é lembrando do que nós costumávamos ser e chorando sim, mas em luto. Então eu vou pintando nossas fotos, nossos momentos de azul. Porque azul me lembra dor e dor é a única coisa que eu consigo sentir agora.

"Não é a árvore a esquecer a flor mas a flor a abandonar a árvore. Algum dia aprenderei a amar estas cicatrizes ainda frescas da lâmina rubra ardente de tuas palavras "

Inspirado pela fanfic da Karlla Kollynew: Retratos em Lápis Azul


12/19/2012

Dias de verão.


Ele acordou sentindo os fracos raios solares atravessando a lona da barraca e indo de encontro aos seus olhos. Ao tentar se mover rapidamente foi lembrado de que não estava sozinho e que havia alguém dormindo pesadamente ao seu lado. Bastou sentir o cheiro da garota adormecida para que sua mente se enchesse de memórias daqueles curtos dias.
Definitivamente a ideia de acampar não havia lhe agradado no começo. Logo ele, um homem tão prático, não conseguia se quer se imaginar passando seus dias de verão em um camping esquecido por Deus. No início tinha se queixado, lamentara a falta de tomadas e a ausência de sinal para o celular mas logo depois se rendera a pressão dos grandes olhos castanhos da menina.
Depois vieram aqueles dias... Veio o passeio de barco, onde ela gritava mais do que tudo e tentava desesperadamente se agarrar nele. Veio o dia da pescaria mas infelizmente não vieram os peixes. E as caminhadas de mãos dadas ao por do sol, enquanto de vez ou outra ela parava para simpatizar com algum animal silvestre. Os jantares ao luar sempre com um bom vinho para acompanhar a truta. As juras vieram, o carinho veio logo em seguida. A paixão exigente, ofegante e insaciável vinha todas as noites na pequena barraca.
Ele deixou os dedos vaguearem por entre os fios de cabelo dela enquanto se indagava: "E quando veio o amor ?"
Ela abriu os olhos e sorriu. Aquele sorriso preguiçoso, despreocupado e sincero. Passou os dedos pelo rosto dele numa carícia tão suave quanto uma brisa. Neste momento ele entendeu: o amor sempre esteve ali.

"Quero a vida sempre assim, com você perto de mim..."


12/18/2012

Efemeridade.

- Qual seu problema, garota ?
- Você.
Ele riu forte e a beijou, deixou os dedos percorrerem os cabelos emaranhados dela e depois focou no seu rosto.
- Você sabe que não confio em você...
- E por que, posso saber ?
- Porque você beija com os olhos abertos, você nunca se rende, nunca se doa por inteiro. Porque seu coração está muito longe de ser alcançado. Porque tudo com você sempre vai ser efêmero.

"Só que eu tenho muito medo de me apaixonar. Esse filme já passou na minha vida e você tá me ajudando a superar."


untitled


Ele a queria por inteiro. Alma, pele, carne, coração, mente.
E ela ? Bem ela queria segurança.


.


Ela não tinha ideia do que estava fazendo. Estava apenas andando pelas ruas, sentindo o cheiro do mar, o cheiro de bossa... quando ele surgiu de algum lugar.
Ele queria saber se ela estava sozinha, se queria ajuda e diante da ausência de resposta foi logo lhe agarrando a cintura, fungando em seu pescoço. Ela não se lembra de o ter encorajado mas deve ter o feito. Os dedos dele estavam gelados embaixo da blusa dela, o que fez com que seus mamilos se arrepiassem em resposta.
Chegaram as pedras como ela queria e depois foi tudo rápido e frio. Seus olhos se fixaram nas estrelas enquanto sentia as fortes estocadas dentro de si. E quando ele acabou, urrando e caindo em cima dela, ela se sentiu suja. Imunda. Podre por dentro e por fora. O empurrou com a maior dose de desprezo que conseguiu imprimir ao ato e se vestiu. Deixou duas moedas em forma de um agradecimento irônico pelo entretenimento.
Ela andou tanto, até não sentir suas pernas, até sentir seu coração congelar, até se jogar no mar e ver tudo apagar.


Inspirado por Paula McLain, pelo ar, pelo além e por uma dose de vodka com morango e açúcar.

Aleatório.


Uma fogueira alta, enorme. Feita de ti e por ti. Queimando, ardendo e sufocando. Doendo. Tu e eles. Ardendo. Todos. Ardendo, sofrendo. Falsa importância. Tu e eles. Fingindo. Pagando. Sofrendo.
Observando. Satisfazendo. Culpando. Eu. Sadismo. Ódio. Ócio. Ternura. Amor. Doentio. Secura. Sofreguidão. Angústia. Fim.

Dirty, fallen and broken fairy tales.

Era uma vez uma casa, no fim da rua Lilás. Era uma casa simples e por mais que fosse inabitada estava sempre limpa, conservada e exalando um aroma refrescante.
Havia uma lenda, que dizia que lá dentro um dia houvera uma família feliz composta pelo pai, a mãe e duas lindas menininhas. O homem era forte e protegia sua família acima de qualquer coisa, já a mulher apesar de ter forte caráter era frágil por dentro e qualquer coisa era capaz de fazer sua estrutura frágil vir a baixo. Eles iam bem até o homem ser convocado para defender seu país.
Na noite em que partiria, ele abraçou suas filhas e prometeu voltar para construir a casa da árvore que tanto prometia. Beijou sua mulher que estava aos prantos, segurou-lhe a mão e lhe prometeu lindos brincos de pérola quando voltasse. Com essa despedida ele se foi confiante.

O tempo passou o outono se foi e o inverno chegou. A mulher ainda se levantava todos os dias de manhã para fazer o café, arrumar a cama e divertir suas filhas mas algo dentro dela havia mudado ou melhor por dizer que algo dentro dela havia morrido. Apenas o que a motivava era ver suas filhas lindas e saudáveis e felizes como sempre.
No fim do inverno chegou uma carta comunicando que o homem havia falecido em trabalho. A primeira sensação que atingiu bem fundo o peito da mulher foi o vazio e logo em seguida veio a falta de ar por fim o desespero. Diferente do que todos previam ela não chorou de imediato, apenas pegou suas filhas e as levou para dentro dizendo estar na hora do lanche.
Dias e dias se passaram e a mulher iniciou uma nova rotina, ela acordava e vestia as roupas do seu marido, ia ao banheiro e cheirava sua loção de barbear e depois disso voltava para cama onde ficava horas e horas apaixonada por sua própria loucura. A casa foi ficando abandonada, as crianças sem amparo. Até um dia lhe tomarem as filhas, alegando sua falta de equilíbrio mental. Aquele foi o último golpe que ela levou antes de sua frágil estrutura se partir em milhões de caquinhos.
A mulher faleceu um ano depois, sozinha e louca.

"Senhora encantada, que espera no muro a vida é curta e a espera é longa"


12/17/2012

Simplicidade


O vento gélido fez com que ela resmungasse e puxasse a pesada manta mais para junto de si. Costumava fazer frio lá para as tantas da madrugada naquela região serrana. Ela resmungou novamente e chegou-se mais para junto dele afim de se aquecer ainda mais. Recebeu um protesto em resposta:
- Seu pé está gelado, tire da minha perna, sua louca.

Ela riu baixinho o que fez com que o homem abrisse de leve os olhos para espiar. Adorava ve-la rindo, sempre o enchia de alegria e jovialidade. Virou-se e a abraçou passando o braço por cima de seus ombros.

-Sabe, pequena, as vezes me acho velho demais para você.
- Por que tem 42 e eu 26 ? Ora, mas não diga asneiras. - ela falou enfiando a cabeça na curva de seu pescoço. - Gosto do seu cheiro.
- Gosto do seu cheiro, do seu gosto...

E ele a puxou para cima de si, arrancando mais risos da garota. E se deixaram perder um no outro pelo resto da noite.



Por Uma Noite.


Por uma noite você fingiria que as coisas continuam como antes ?
Por uma noite você esqueceria o trabalho, os atrasos e dormiria de cabelo molhado ?
Por uma noite você apenas pegaria a minha mão e me levaria para longe ?
Por uma noite você cuidaria de mim, você me seguraria em seus braços ?
Por uma noite você deitaria sob o luar comigo e contaria as estrelas ?
Por uma noite você me salvaria ?


Por uma noite eu gostaria que você me amasse.

Inverno


O vento frio lhe golpeava a face enquanto ela estava sentada naquele velho banco. Ela ainda podia se lembrar do verão passado, quando se sentou ali com ele e ambos filosofaram sobre alguma coisa que na verdade não tinha importância. Ela podia lembrar, mas não podia sentir.
Uma mão tocou em seu ombro, por mais cálida que estivesse o toque era frio. Assim como tudo nele sempre fora. Sempre cético, sempre frio. Não havia lugar para ela e para todos os seus sonhos. Nunca houvera.
Por um momento ela desejou apenas que ele segurasse sua mão, entrelaçasse os dedos nos dela. Mas ele não o fez, no lugar disso apenas deu um longo gole na Guiness que segurava.

- É, pretinha, o inverno chegou. – ele disse olhando pro horizonte.- As coisas mudaram tanto.
- Mudaram e ao mesmo tempo, não. –a cabeça dela continuava abaixada.- Certas marcas, nós carregamos para toda a vida.
- Verdade. – ele se virou para ela e passou a mão por seus cabelos.- Espero que você possua uma visão mais realista do mundo agora, pretinha.
- Eu tenho. –a voz dela saiu dura e pela primeira vez ela levantou a cabeça. – E lhe devo isso. Lhe devo a perda dos meus sonhos... Sabe, você me ensinou a ser quase tão fria quanto você.
- Eu te amava, pretinha. E eu sonhava, sonhava com você nos meus braços.
- Amava, mas não demonstrava. – ela se levantou.- Sonhava, mas com os pés no chão.

Ela se virou e foi embora, com as lágrimas escorrendo pelo rosto.

O Monstro.


Ela estava ali de novo. Sentada no sofá, os cabelos castanhos e assimétricos lhe caindo nos olhos, a caneca de café na mão... De fato daria uma bela foto. Ele mesmo teria tirado uma se não fosse pela sua expressão. Os olhos, cinzentos como o céu numa tempestade, não exibiam qualquer resquício de emoção... sua boca estava quase normal, exceto pelo tremor insistente do seu lábio inferior.
Ele passou a mão nos cabelos uma, duas, três vezes.

- Por que você faz isso ? -ele perguntou finalmente.
- Porque eu preciso. - as mãos dela apertaram a caneca com mais força e seu olhar se fixou no nada. - Eu preciso te controlar, eu preciso te humilhar. Preciso que você sangre por cada erro, tanto meu quanto seu. O monstro dentro de mim pede isso. - seus olhos ficavam cada vez mais vidrados e as palavras saíam mecanicamente. - Eu preciso que você dependa de mim, preciso de você para suportar todas as minhas atitudes doentias.

"Um dia tu estarás em um lugar escuro, eu te enviarei o fogo e então te ouvirei gritar"


Ironia.


Aquele dia era uma ironia. O céu estava claro e o Sol brilhava ardentemente mesmo depois da tempestade que o antecedera. Apesar de não passar das oito horas eu podia ouvir as vozes que vinham da sala. Eram todas lamentos e ladainhas que não faziam sentido algum para mim.
Acho que eu me destacava naquela procissão de corvos que marchava em direção a capela. Eu usava aquele vestido florido que você tanto elogiava. Achei graça do fato do seu corpo estar na capela, afinal você nuca acreditara em nada daquilo. O que será que as pessoas pensavam ao me ver lá parado do lado do seu corpo com os olhos fixos e o rosto tranqüilo ?

Sabe, eu me lembrava de tudo em flashes. Os passeios de mãos dadas pela orla de Ipanema, as noites jogados na varanda da nossa casa em Botafogo, o “feliz ano novo” sussurrado no meu ouvido enquanto o resto das pessoas no cruzeiro berravam... Lembrava-me desses momentos assim como me lembrava de momentos tão rotineiros que na época pareciam insignificantes, como o som da sua respiração a noite e o barulho do chuveiro ligado de manhã.
Aquelas pessoas ali não haviam presenciado isso tudo, nossa vida calma e feliz. Elas achavam que você foi embora porque quis, que você colocou o arsênico no vinho. Eu não acredito e eu sei que um dia você terá justiça.

Por um momento deixei meus dedos roçarem nos seus. Ai como estavam gelados, meu amor. Eu senti uma solitária lágrima escorrer no meu rosto, mas a sequei rapidamente. Você nunca ia querer minhas lagrimas, então lhe dei meu último sorriso.

"Um tenebroso dia ensolarado então vamos lá onde somos felizes e eu encontro você nos portões do cemitério"

Enjôo

No começo estávamos apaixonados. Aquela paixão que costuma encher o coração dos jovens de loucuras. Dois meses e nós já estavamos brigando. Pequenas coisas que nos envenenavam aos poucos. A sua roupa no chão do banheiro, a toalha molhada sobre a cama.

Então veio aquela noite. A noite que seu hálito de vodca me sufocou, que seu jeito sempre superior me cegou de ódio. A noite em que você saiu com as malas. As palavras saíram da sua boca e me atingiram como um punhal:
- Eu tenho nojo de você. De mim. De nós, do que nós nos tornamos.

"É tão fácil fazer rir, é tão fácil fazer chorar... é preciso força para ser gentil e carinhoso."

Untitled


O verão se foi e então chegou o outono e com ele as ruas cobertas de folhas. A cidade começava a esfriar e as pessoas começavam a usar seus casacos guardados por tanto tempo.
Ela girou a chave duas vezes na fechadura e entrou no apartamento. Era assustador a forma como tudo continuava exatamente como antes. Ela caminhou até a cozinha. Sim, estava tudo exatamente como da última vez: os temperos enfileirados por cor na prateleira, a lista de compras pregada à geladeira e um pequeno rádio junto à bancada. Ela apertou o play e ouviu a voz melodiosa de Vinícius de Moraes.

Podia vê-lo ali, entre os temperos e frigideiras, preparando o jantar, enquanto cantarolava para si mesmo e picava cebolas. Ele viraria e lhe daria alguns versos, cantarolando sedutoramente: “Morena flor, me dê um cheirinho cheinho de amor”. Dançaria com ela em meio à fumaça e ao cheiro de comida caseira, selando tudo com um beijo.
Também podia o ver jogado no tapete felpudo da sala. O violão repousado no peito, os óculos escorregando levemente pelo nariz, as notas saindo suaves e tranqüilas. Ele diria que ela trabalha demais, se preocupa demais e então a faria escorregar para o tapete com ele. Faria uma enorme bagunça em seu cabelo, o que ele diria se tratar de apenas um afago, e conversariam sobre os mais impossíveis assuntos.
Ele também estaria atirado na cama embaixo das pesadas cobertas de lã, gritando seu nome e avisando que iria começar mais um filme clássico. Ela se aconchegaria sobre o peito dele e juntos veriam Audrey Hepburn, Judy Garland e Bette Davis brilharem novamente na tela. Ela provavelmente adormeceria antes do filme acabar, embalada pelo barulho da chuva lá fora.

Ela piscou duas vezes e olhou em volta. O apartamento estava vazio e frio. A noite já caía e não havia jantar sendo preparado. Ela desligou o rádio e se sentou no sofá. Encobriu o rosto com as mãos. Estava frio e ele nunca mais iria lhe trazer uma xícara de chocolate fumegante. Não, ele nunca mais voltaria.

"Mas fica um pouco mais.. que tal mais um café ? "